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apenas em e-book, na amazon:

A MATÉRIA DA CAPA

A notícia sobre a existência de uma fenda espacial localizada no espaço aéreo de um pequeno vilarejo gaúcho, entre o Atlântico e a Lagoa dos Patos, não demora a chegar à redação de uma grande revista de circulação nacional. Seu jornalista investigativo mais renomado é então enviado ao local, em missão secreta, para apurar a verdade dos fatos. 

A principal fonte do jornalista é um ex-taifeiro que serviu ao Exército na segunda metade do século passado, que, ao trabalhar no cassino dos oficiais, conhece a obra de Antonin Carême, o Cozinheiro dos Reis, e se torna uma autoridade no preparo de pratos exóticos e sofisticados.

Ao se aposentar, cabo Nunes vai viver no interior do Rio Grande do Sul, onde passa os dias entre a preparação de uma iguaria e outra e cultivando um pé de manjericão que, pelo cheiro, lhe permite identificar a direção dos ventos. Leva um quotidiano sem sobressaltos, até descobrir uma greta espacial abandonada por extraterrestres, que estaria servindo de porta de entrada para uma ideologia contaminada pelo mal, pondo em risco o futuro do Brasil.

Com rara habilidade para forjar uma realidade diferente daquela que tem diante dos olhos, e ajudado por estranhos personagens que lembram obras de ficção, o jornalista, por sua vez, não apenas salva uma pauta que em outras mãos estaria perdida para sempre, como consegue escrever uma reportagem que vem a ser a capa da edição seguinte da revista.

A MATÉRIA DA CAPA é uma sátira à forma como alguns veículos de imprensa brasileiros atropelam o bom senso e a lógica e propagam suas teses de acordo com seus interesses, grandiosos ou mesquinhos, jornalísticos ou não.

Tailor Diniz é escritor e roteirista, tem 15 livros publicados. Seu livro EM LINHA RETA foi semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura 2015.

O livro pode ser comprado na Amazon:

www.amazon.com.br/mat%C3%A9ria-da-capa-Tailor-Diniz-ebook/dp/B018KTWCGW/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1450876976&sr=8-1&keywords=tailor+diniz 



Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 08h13
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Texto generoso do Luiz Gonzaga Lopes

 

No blog LIVROS+ do Correio do Povo

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/livrosamais/?p=317

 




Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 10h46
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Tod auf der buchmesse - uma resenha bacana em alemão

CRIME NA FEIRA DO LIVRO - editora ABERA 

http://www.latizon.de/LT.ht 




Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 08h48
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Crime na Feira do Livro - orelha de Altair Martins

Esta é uma novela para se ler em Porto Alegre ou, ao menos, tendo na retina suas ruas, a paisagem do Guaíba e, sobretudo, dos jacarandás da Feira do Livro.

Mas também é uma novela para quem gosta de livros – policiais ou não – que mantêm o leitor suspenso ao labirinto envolvente da trama. Há aqui três ingredientes básicos em torno de um mistério, digamos, literário: diálogos entre comida e bebida (em generosas proporções), a figura da mulher sensual e intimidadora e o gosto pela racionalidade investigativa.

Em meio à crise econômica que abalou o mundo em 2008, o detetive Walter Jacquet e seu escudeiro João Macedônio (interlocutor típico dos detetives e que faz lembrar a paternidade simbólica de Macedónio Fernández sobre Borges), quase testemunham um crime ocorrido nas imediações da Praça da Alfândega, durante a Feira do Livro de Porto Alegre. Adavilson, um conhecido livreiro, é assassinado por um homem mascarado, e o livro que a vítima levava na mão é misteriosamente trocado por outro.

Tecem-se aí as linhas mestras de uma narrativa envolvente, ágil e muito bem humorada. O humor, por sinal, é o tempero pessoal de Tailor nesta trajetória de Jacquet em busca do desvendamento do crime, passando pela misteriosa Confraria do Acaso e suas figuras bizarras, no Bom Fim, e pelas considerações acerca da sensualíssima delegada Florença Flores, mulher de um incisivo superior cruzado – coisa rara nas mulheres ortodônticas de hoje! – e que leva no bolso do tailleur uma Colt .45!

Entre comilanças – e as comidas são tantas! –, no alto do edifício Esplanada, divisa dos bairros Independência com Moinhos de Vento, os dois amigos, ao sabor de aperitivos, charutos e boa música, resolvem participar da investigação pelo gosto puro da aventura racional.

Um final marcante, um livro raro encontrado e um prato pessoal de Jacquet aguardam o leitor. E tudo numa primavera em Porto Alegre. Enfim, é de se abrir o livro para perceber que Tailor Diniz renova os temperos e inclui justificadamente o seu nome na receita.



Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 13h53
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Crime na Feira do Livro

Nos próximos dias publicarei aqui o primeiro capítulo de meu novo livro, Crime na Feira do Livro. A novela foi publicada em junho pela editora Dublinense [www.dublinense.com.br] e está à venda nas principais livrarias do Brasil e na internet.



Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 15h40
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Como criar uma personagem

A pergunta mais freqüente que ouvem os escritores é “de onde vem a inspiração?” para criar personagens, como se um outro mundo, que não este conhecido de todos, estivesse ao alcance dos olhos de quem cria. A resposta, pela sua simplicidade, às vezes desaponta quem pergunta. Vitor Hugo, por exemplo, considerava-se não mais que “o eco sonoro” do mundo que o cercava. Anton Tchekhov, outro gigante da literatura universal, também fez do quotidiano uma inesgotável fonte de material literário. Seu amigo A. Kuprin, em ensaio intitulado À memória de Tchekhov, revela que ele conversava com igual interesse com um cientista ou um vendedor ambulante, um mendigo ou um literato, um conhecido funcionário público ou um monge de caráter duvidoso. Turgêniev era ainda mais direto: “Nunca tentei criar um personagem sem ter, para me inspirar, não uma idéia, mas uma pessoa viva.”

A escritora espanhola Rosa Montero, em seu livro A louca da casa, conta a história exemplar de como surgiu a idéia de escrever o romance Te tratarei como uma rainha. Certa vez, sentara-se num bar de Sevilha, e servindo os poucos fregueses da casa estava uma mulher que, de início, nada apresentava de interessante para lhe chamar a atenção. Depois de algum tempo, no entanto, tirou o casacão que vestia, deixando à mostra apenas um vestido azul cintilante, muito justo ao corpo, e foi tocar piano, num canto obscuro do bar. O primeiro pensamento da escritora, ao ver aquela personagem viva à procura de um autor, foi perguntar a ela que tipo de sonhos a levaram a aprender piano e que tipo de fracassos a atingiram ao ponto de vir parar ali, naquele bar de quinta categoria, dividindo a vida entre a garçonete e a pianista da casa. Preferiu, no entanto, ela mesma, por meio da ficção, dar a essa mulher uma história.

 Do real para a ficção

Te trataré como a una reina ainda não foi publicado no Brasil. No início do ano, quando estive em Buenos Aires, adquiri um exemplar em espanhol, editado pela Seix Barral, coleção booket, e pude conhecer uma históira que sempre me pareceu muito curiosa. Assim, no segundo parágrafo do livro, Rosa Montero começa a transpor para a ficção a personagem real que conhecera num bar de Sevilla: “La tarde de autos don Antonio se encontraba em su casa quando sonó el timbre de la puerta. Poco imaginaba el infortunado que en descansillo le estaba la asesina, Isabel López, de 46 años, más conocida con el alias de ‘La Bella’, cantante de boleros en un clube nocturno cercano al barrio chino, actualmente detenida por la eficaz acción de los inspectores de Polícia del Grupo de Homicidios.”



Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 08h37
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O bom futebol fora das quatro linhas

O segundo tempo

Michel Laub

Companhia das Letras

112 páginas


Dos especialistas da área ouve-se muito a afirmação de que o futebol, pela paixão que o envolve, pela sua beleza e pela tensão vivida por jogadores e torcedores durante uma partida, é uma fonte dramática pouco explorada, em especial na literatura e no cinema. Alguns escritores até têm se ocupado dele numa tentativa de conciliá-lo com a literatura, concedendo-lhe um valor - digamos - mais intelectual e não somente objeto de paixões e algo meramente de entretenimento, mas o resultado tem sido pífio. É justo que quem é do ramo, com o intuito de valorizar uma ocupação diuturna, tente fazer do futebol algo que ele não é. No frigir dos ovos, no entanto, o bom do futebol está mesmo é dentro das quatro linhas, durante o tempo regulamentar, apaixonando multidões e sendo, no máximo, o combustível das discussões da segunda-feira seguinte.

Há, no entanto, as exceções. Aldyr Garcia Schlee, por exemplo, escreveu um excelente livro que tem o futebol como foco, digno das melhores considerações. Em Contos de Futebol, destaca-se o conto Naquela Tarde Impossível - a história de uma turma de garotos fanáticos que, na tarde de 16 de julho de 1950, por pressentimento ou para driblar o nervosismo de uma decisão, atravessa a fronteira e vai à matinée, justamente na casa do inimigo, o Uruguai, com quem o Brasil joga a final da Copa do Mundo. Outro autor que também deve ser citado como um dos poucos que se deram bem ao tomar o futebol como ponto de referência é Sérgio Faraco. No conto Dia dos Mortos também se reporta ao fatídico jogo, no qual o Brasil, ao ser derrotado, frustra a expectativa de uma nação inteira. O autor transpõe essa frustração para dois personagens banais, anônimos, o que resulta numa tragédia de altíssima e primorosa abordagem psicológica.

Entre esses dois grandes autores pode-se colocar o também gaúcho Michel Laub, com seu O Segundo Tempo, cuja referência é aquele jogo que ficou conhecido como o Grenal do Século, disputado no dia 12 de fevereiro de 1989. Nesse dia, Internacional e Grêmio disputavam não apenas o direito de seguir em frente no Campeonato Brasileiro, mas também uma vaga na copa Libertadores da América. Desnecessário dizer que as paixões, naquele dia e nos anteriores, tanto de gremistas como de colorados, esteve à flor da pele. Laub, como fizeram Schlee e Faraco [e certamente está aí o motivo dos excelentes resultados que alcançam ao tomar o futebol como tema], deixa a teoria futebolística para os especialistas da hora e usa a exacerbação da rivalidade para dimensionar os dramas pessoais dos seus personagens.

Laub relembra as escalações e até quase narra os momentos mais dramáticos da partida. Mas não é o jogo em si a peça central, ou a mais importante, dos conflitos vividos pelo protagonista naquela triste tarde de domingo. O drama é muito maior do que perder uma decisão. O que está em jogo e depende do resultado da partida é algo de extrema complexidade - são os destinos de pessoas queridas e desamparadas. E Laub sabe muito bem colocar essa relação na balança. À medida que a narrativa se desenvolve, o jogo se torna paradoxalmente mais importante não pelo que representa como uma decisão, mas pelas conseqüências que seu resultado terá na vida íntima dos protagonistas. Conseqüências que, ressalte-se, nada têm a ver com campo ou vestiário - estando aí uma das grandes virtude do livro.

Esse talento para dominar a narrativa e manipular [para o bem] a emoção do leitor Michel Laub já havia demonstrado em seu primeiro romance, Música Anterior. Trata-se, portanto, de um autor cuja obra já o consagra como um dos melhores e mais qualificados da literatura brasileira.

[Revista APLAUSO - Porto Alegre-RS]



Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 09h12
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Contar para não esquecer...


ELIO GASPARI [Folha de São Paulo - 13/08/2008]

A tortura é a verdadeira herança maldita

O MINISTRO da Justiça, Tarso Genro, teve a sua hora como guardião dos direitos humanos e amarelou. Em agosto do ano passado, ele deportou os boxeadores cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, que abandonaram a delegação do seu país durante os jogos do Pan.

Rigondeaux, bicampeão olímpico, foi excluído da equipe enviada a Pequim. Erislandy fugiu de novo, está na Alemanha e de lá informou: "Não tivemos nenhum apoio e, sem ninguém para contatar, fomos obrigados a pedir para voltar para Cuba".

Há algo de oportunismo e de caça ao evento na auto-investidura do comissário Genro como perseguidor de torturadores. Sua estatura como ocupante da cadeira onde sentou-se Diogo Feijó (1831-1832) cabe numa frase dita por ele: "O presidente pode dar um puxão de orelha em qualquer ministro. Isso é da sua competência, mas eu não levei puxão de orelha". Mesmo assim, Tarso Genro esteve certo em relação aos torturadores.

A tortura foi uma política de Estado durante a ditadura, particularmente entre 1969 e 1977. Como disse o general Vicente de Paulo Dale Coutinho, às vésperas de assumir o Ministério do Exército, em 1974: "Ah, o negócio melhorou muito. Agora, melhorou, aqui entre nós, quando começamos a matar". Como reconheceu um estudo do Centro de Informações do Exército, praticaram-se "ações que qualquer Justiça do mundo qualificaria de crime". Os torturadores cumpriam determinações de seus superiores. Prova disso foi a concessão da Medalha do Pacificador ao delegado Sérgio Fleury, ícone do Esquadrão da Morte e do porão paulista.

A história segundo a qual a tortura e a prática sistemática de assassinatos foi produto de excessos, indisciplina ou deformação moral de subalternos é uma patranha destinada a polir a biografia dos comandantes militares e dos presidentes da República da ocasião.

Se a família de uma vítima da máquina repressiva dos generais, almirantes e brigadeiros, vai à Justiça em busca da responsabilização dos oficiais que comandavam o porão, esse é seu direito. Caberá ao Judiciário decidir se a anistia ampara a outra parte. Pena que fiquem de fora os finados comandantes que mandaram capitães e majores torturar e matar brasileiros.

Há um aspecto relevante nesse debate. É a postura dos atuais comandantes diante da herança maldita da ditadura. Em vez de exorcizá-la, reconhecendo um erro cometido há mais de 30 anos, cavam duas trincheiras. Uma é a do debate inoportuno. Outra é a da negativa da responsabilidade dos hierarcas. Ambas são falsas, e o debate é necessário. O desconforto e a irritação dos comandantes militares com a tortura é o único tema dos anos 60 e 70 que não desaparece da agenda política nacional. O país já se livrou da inflação e da Telerj, mas a sombra soberba dos DOI-Codi continua aí.

Algo como se o doutor Henrique Meirelles fosse obrigado, hoje, a defender a inflação dos seus antecessores remotos no Banco Central.

Quem vive preso ao passado não são os órfãos do DOI, são os protetores de sua memória.

Os comandantes militares carregam na mochila crimes alheios. (A tortura, assim como o seqüestro, pode ter sido coberta pela anistia, mas crime foi.) Não são as vítimas nem seus parentes que devem calar. São os comandantes que devem se acostumar ao convívio com a história.



Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 13h23
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Dica de oficina 2

 

Do livro Cartas a um jovem escritor, de Mario Vargas Lhosa, editora Alegro:

 

"Leia muitíssimo, porque é impossível ter uma linguagem rica e desenvolta sem ler um bocado de boa literatura, e tente, com todas as suas forças, pois não é tão fácil assim, evitar imitar os estilos dos escritores que admira e que lhe ensinam a amar a literatura. Imite-os em tudo o mais: na devoção, na dedicação, na disciplina, nos hábitos, e adote, se julgá-las válidas, as suas convicções. Tente, porém, fugir da reprodução mecânica dos padrões e ritmos da escrita de terceiros, pois se você não for capaz de desenvolver um estilo pessoal, aquele que mais convém ao que você pretende contar, suas histórias dificilmente conseguirão se embeber do poder de persuasão que as fará viver."



Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 17h14
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A família como núcleo de conflitos

Orfãos do Eldorado

Milton Hatoum

Companhia das Letras

112 páginas


Milton Hatoum é hoje o nosso escritor brasileiro de ponta. Quatro livros que mantém o mesmo nível de qualidade e uma temática que, embora se repita, apresenta-se sempre renovada e funciona como uma espécie de aprofundamento da forma como foi abordada anteriormente. O núcleo familiar é o centro do universo ficcional de Hatoum, com algumas pequenas variações entre as partes em conflito. Seus quatro livros podem ser vistos, inclusive, como um bloco só, uma obra única, de rara beleza e densidade psicológica, que tem como pano de fundo imbricações sociais, políticas e econômicas de uma região do país, sob o ponto de vista literário, pouco conhecida dos brasileiros.

Em Dois irmãos, eleito pela crítica como o melhor romance brasileiro dos últimos quinze anos, os contrastes recaem sobre dois irmãos que se odeiam, Omar e Yaqub, e alimentam um conflito familiar de melancólicas conseqüências. Em Cinzas do Norte, o conflito ocorre entre pai e filho, assunto que também não é novidade em literatura. Quanto ao novo livro de Hatoum, Órfãos do Eldorado, há na sua estrutura, na relação de contrastes entre os personagens principais, uma sensível proximidade com Cinzas do Norte. Tanto no primeiro como no segundo, o conflito ocorre entre pai e filho. Em Cinzas do Norte, o pai não aceita a vocação do filho para as artes. Diante da incapacidade do pai para entendê-lo e aceitá-lo nas suas escolhas, o filho enfrenta-o e se rebela. Vai consumindo-se aos poucos, de forma que sua própria vida acabe sendo o caro preço da vingança. Em Órfãos do Eldorado, o filho nega-se a ser o herdeiro perfeito, aquele idealizado pelo pai, e como vingança, após a morte deste, vai se desfazendo de todo o patrimônio da família. Comporta-se assim, também, levado pelo amor a uma jovem, cuja personalidade e relação com as lendas da região amazônica lembra personagens marcantes de Isabel Allende e Gabriel García Márquez.

Interessa também na obra de Hatoum o espaço no qual a sua ficção se desenrola, Manaus e o entorno do rio Amazonas, tendo como ingredientes uma cultura construída entre portos, mercados, embarcações de transporte, grandes fazendas, teatros, palácios e vilas ribeirinhas. Esses efervescentes espaços são verdadeiras ilhas nas quais se desdobram outros pequenos núcleos de ação: portos habitados por criaturas sofridas que perambulam entre o subemprego, espeluncas e bordéis; embarcações que sobem e descem o rio carregando a matéria prima que movimenta a economia da região, especialmente a borracha; grandes fazendas administradas por senhores pouco éticos com fortes e sistemáticas influências políticas; finos teatros que recebem uma elite muitas vezes mais preocupada em praticar a arte das aparências, e os arrabaldes onde vive o povo simples e sobrevivente das relações, quase sempre injustas, entre capital e trabalho. Todos esses pequenos núcleos acabam se cruzando na pele de personagens-chave, com a preponderância dos interesses do mais forte, mesmo que as partes em conflito estejam na mesma trincheira, um palacete em Manaus ou uma grande fazenda no interior do Amazonas, e sejam elas dois irmãos ou um pai e um filho.

Outra característica de Milton Hatoum é a ambigüidade sobre os laços familiares de certos personagens. Em alguns casos a dúvida permanece, como a paternidade do narrador de Dois Irmãos ou os verdadeiros vínculos entre o pai de Arminto Cordovil e a jovem por quem ele se apaixona e que colabora com a sua bancarrota, em Órfãos do Eldorado. São dúvidas que cativam ainda mais o leitor, que alimentam a reflexão e tornam cada novo livro de Milton Hatoum uma oportunidade de reler um texto de altíssima qualidade e ir mais fundo naquilo que a literatura brasileira tem de melhor e mais consistente.

[Revista APLAUSO - edição 92]



Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 13h52
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Dica de oficina

 

De um personagem de Norman Mailer, extraído do livro Os machões não dançam, editora Nova Fronteira, página 117:

 

“Dizem que Updike foi pintor, e pode-se ver isso em seu estilo. Ninguém examina superfícies tão minuciosamente quanto ele, e usa os adjetivos com mais precisão do que qualquer outro escritor da língua inglesa em nossos dias. Hemingway aconselhou a não usá-los, e Hemingway estava certo. O adjetivo é a opinião do autor sobre o que está acontecendo, nada mais. Se eu escrevo ‘um homem forte entrou na sala’, isso significa apenas que ele é forte em relação a mim. A não ser que eu tenha descrito minha pessoa para o leitor, posso ser o único cara no bar impressionado pela força do homem que acabou de entrar. É melhor dizer: ‘Um homem entrou. Segurava uma bengala e, por alguma razão, a quebrou ao meio como se fosse um pequeno galho de árvore.’ Naturalmente, a frase fica mais longa.”



Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 15h01
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Ainda Gore Vidal

 

Outro trecho do livro De fato e de ficção, ensaios contra a corrente, citado no post ali de baixo, que aborda a questão das adaptações de obras literárias para o cinema. Agora sobre a relação entre roteiristas e diretores, e as possibilidades e impossibilidades de um e de outro na realização de um filme:

 

“Nessa área poucos diretores possuem a modéstia de Kurosawa, que disse recentemente: ‘Com um roteiro muito bom, até mesmo um diretor de segunda classe é capaz de fazer um filme de primeira classe. Mas com um roteiro ruim, até um diretor de primeira classe é incapaz de fazer um filme que seja realmente de primeira classe.’”



Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 13h37
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Cinema e literatura

 

Há muito tempo venho imaginando o que seria do cinema, do brasileiro em especial, se uma praga de traças assolasse o planeta terra e destruísse todas as bibliotecas e livrarias aqui estabelecidas. O cinema entraria em preocupante crise de criatividade. Não haveria mais livros para serem adaptados e nossos diretores teriam que espremer boas histórias das próprias cabeças. Algo muito grave, não tenho dúvidas. 

 

Na última feira do livro de Porto Alegre garimpei num sebo o livro De fato e de ficção, ensaios contra a corrente, de Gore Vidal, editora Companhia das Letras, uma coletânea de leitura prazerosa e proveitosa ao mesmo tempo. Do ensaio “Quem faz o cinema?” destaco dois trechos sobre o fato de a autoria de um filme, hoje, ser atribuída tão-somente ao diretor, mesmo que se trate da adaptação de um texto literário de autor conhecido:

 

“Essa situação seria mais aceitável se os diretores de filmes tivessem se tornado auteurs. Mas quase todos eles estão mais do que nunca afastados da arte - se não da vida. A maioria é constituída por meros técnicos. Uns poucos vieram do teatro; muitos começaram como editores, câmeras, realizadores de comerciais; o mais terrível é que nos últimos anos a maioria é constituída por pessoas que fizeram curso de cinema na universidade. Em princípio, não há nada errado com uma compreensão profunda dos meios técnicos disponíveis para que uma imagem seja registrada no celulóide. Mas o cinema não é apenas formas de luz, assim como um romance não é apenas papel manchado de tinta. Um filme é uma determinada reação à realidade, e essa reação deve ser definida, primeiramente, por um escritor. Infelizmente, nenhum diretor de cinema contemporâneo suporta ser visto como mero intérprete. Sente necessidade de ser o único criador. O resultado disso é que em geral ele é um plagiário, contando histórias que não lhe pertencem.”

 

 Espertalhões? 

 

“Já que o cinema falado está mais próximo do romance do ponto de vista da forma, ocorre-me que a geração literária que está surgindo poderia ver o cinema como seu tipo específico de romance, um romance a ser criado por eles com a colaboração de técnicos, mas sem a interferência do diretor, esse plagiário-espertalhão que há vinte anos domina, explora e [ocasionalmente] realça uma forma de arte que ainda está em busca de verdadeiros autores.”

 

Esse ensaio, traduzido por Heloisa Jahn, foi publicado em 25 de novembro de 1976, na The New York Revew of Books, e me parece muito oportuno, mesmo depois de passadas mais de três décadas. Se Gore Vidal tem ou não razão, é uma boa questão a ser debatida. Mas o que tem de diretor por aí conseguindo estragar ótimos livros não é pouca coisa...



Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 10h59
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Presente e passado na obra de dois contistas gaúchos

 

Olhos de Morcego                                Uísque sem gelo

Leonardo Brasiliense                                     Vítor Biasoli

Editora 7Letras                                               Editora Movimento

108 páginas                                                      86 páginas


Dois contistas gaúchos estão com livros novos na praça, Leonardo Brasiliense e Vitor Biasoli, ambos com uma obra já consistente em seus respectivos currículos. Em seu novo livro, Olhos de Morcego, Brasiliense mantém as características de obras anteriores. Toma como ponto de partida para sua ficção aqueles eventos comuns da vida quotidiana protagonizadas por pessoas simples, aparentemente sem uma grande biografia, mas que na mão de um escritor sensível e atento às mazelas humanas acabam se transformando em personagens de uma impressionante densidade psicológica.

A matéria prima de Brasilense são os dramas banais de criaturas banais que habitam cantos esquecidos do mundo quase como se não existissem. Pode se revelar tanto no episódio de um peão perdido, à noite, no meio do pampa, como no da adolescente rebelde que planeja uma fuga para se encontrar com o namorado, ou da parteira que nunca teve filhos, da viúva de um marido que só lhe deixou dividas, da avó que procura o estuprador da neta para fazer justiça com as próprias mãos, ou do genro que toma cerveja em companhia da sogra como forma de se auto-excluir dos conflitos familiares.

Nota-se, ainda, na obra de Brasiliense uma reiterada inquietação com a técnica narrativa, já nítida em seus livros anteriores, explícita agora no primeiro conto do novo livro, o excelente Fim dos Tempos. A ação se desenvolve a partir da transmissão ao vivo de uma tentativa de linchamento. Mas o interessante aqui é a técnica e o seu efeito. Por meio de uma nervosa mas equilibrada alternância de focos, que vai da câmera à tela do vídeo, do personagem que participa da ação àquele que a assiste na televisão, o autor transmite com real precisão um tipo de evento muito comum hoje na programação cada vez mais apelativa da TV brasileira. Fim dos tempos lembra o carioca Sérgio Sant’Anna, um dos autores brasileiros mais inquietos com as possibilidades técnicas da narrativa.

Vitor Biasoli, por sua vez, segue um outro viés, não menos atrativo para a literatura: a memória e suas implicações na vida presente dos personagens. O louvável em Uísque sem gelo é que o autor, ao contrário do que muito se vê em obras com tal conteúdo, não faz de seus personagens criaturas que reverenciam o passado com ranço saudosista, invocando-o como o ideal e insuperável em todos os sentidos. Pelo contrário, nessas constantes referências a fatos da infância e da juventude há sempre a necessidade, às vezes quase frenética, de reavaliar certas posturas com o objetivo de entendê-las a partir de um novo contexto. A narrativa muitas vezes vem carregada de melancolia e sofrimento, ingredientes importantes para se entender o ambiente claustrofóbico no qual mergulham os personagens-narradores de Biasoli.

O autor tangencia ainda um período emblemático da vida política brasileira, os anos 70, o auge da ditadura militar, e faz dele, sem rancor ou reverência, um pano de fundo consistente, uma espécie de rio a transitar com vigor no subsolo do texto. A agitação da vida universitária, as repúblicas estudantis, a liberação sexual, o dia a dia de uma geração inquieta que se conflita com os fortes resquícios de puritanismo do início do século fazem de Uísque sem gelo não apenas uma possibilidade de reencontro para aqueles que viveram a mesma época. Permite também às gerações mais novas o conhecimento sobre uma época ao mesmo tempo obscurantista e de libertação, marcada por importantes transformações, especialmente na área social, de costumes e de comportamento, com fortes implicações nos dias atuais. [TD]

 [Revista APLAUSO - edição 91]



Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 10h19
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A colheita de quem planta ventos

 

Um dos autores indispensávies para quem pretende seguir a carreira de escritor é o argentino Alberto Manguel. Gosto muito de Os livros e os dias, publicado no Brasil em 2005. Para escrevê-lo, Manguel escolheu doze livros importantes na sua formação profissional e pessoal e dedicou um mês para a leitura de cada um. Enquanto lia, Manguel ia fazendo observações intercaladas sobre o texto, comparações com a primeira leitura, reflexões filosóficas e considerações sobre o momento em que os leu pela primeira vez e a atualidade. O resultado é um livro fascinante não apenas pelo prazer da leitura, mas pelo caminho que nos abre para entendermos as entrelinhas de um texto e o seu processo criativo. Quando ocorreu o atentado ao WTC, por exemplo, Manguel encontrava-se num local onde não havia TV, e era informado dos acontecimentos pela sua filha, que estava no Canadá e sentia uma urgente necessidade de compartilhar com alguém o seu sentimento de horror e perplexidade. Manguel aproveitou esse momento para refletir sobre as relações de poder desenvolvidas no mundo ao longo dos tempos.

 

 Quem planta...

 

O livro com o qual relaciona o atentado é Memórias de além-túmulo, de François-René de Chateaubriand, que ele lia no mês de setembro do ano posterior ao fato, quando preparava Os livros e os dias. Diz Manguel sobre a destruição das torres: “O Ocidente reconhece o Outro apenas para desprezá-lo melhor, e depois fica atônito com a resposta que recebe. [...] O horror sentido diante de atos como os do ano passado ecoa retrospectivamente ao longo da história: o horror dos árabes diante da brutalidade dos primeiros cruzados; os incas descrendo de que qualquer coisa humana pudesse ser tão sanguinária quanto as hordas de Pizarro; os aborígines da Tasmânia incapazes de colocar em palavras (pois sua língua era desprovida de tais termos) a bestialidade dos colonizadores europeus.”

 

Seria mais ou menos como dizer "quem planta, colhe" ou "quem semeia vento colhe tempestades". Alberto Manguel, quando jovem, em Buenos Aires, lia para Jorge Luis Borges, o que, em parte, explica o fato de seus livros serem verdadeiras celebrações à leitura.



Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 08h02
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