UM-SETE-UM ERÓTICO

 

Uma gripe das pesadas andou visitando esta modesta casa de reflexões sobre o umbigo, mas já está tudo bem, graças a algumas canecas de chá de guaco, poejo, mel e limão, cachecol no pescoço e meias quentes nos pés. E umas boas doses de paracetamol, que ninguém é de ferro.

 

A minha amiga Lu Aquino, que lá na sua morada da Zona Sul começa a escrever uma novela policial, criou um blog chamado E-mail surreal [link ali ao lado], no qual ela acomoda todas as mensagens estranhas que batem no seu inbox, diariamente, vindas dos pontos mais inimagináveis do Brasil e, às vezes, do planeta. Tudo porque, uma das primeiras a aderir à ferramenta, registrou um e-mail que é luciane@algumacoisa.com.br, ou seja, um prato cheio para enganos de toda ordem.

 

Não sei se isso é um privilégio ou não. Mas empurrou a Lu para o saudável exercício do blog e seus benéficos efeitos colaterais. No meu pouco concorrido inbox chegam apenas irritantes spams, e conviver com eles não é nada engraçado e prazeroso. Mas nesta semana, talvez nem o Bill Gates consiga explica como, bateu aqui um desses mails que chovem diariamente lá no correio da Lu. Imediatamente pensei em encaminhá-lo para que ela o publicasse em seu blog. Mas depois, tomado por um certo egoísmo oportunista, já que eu andava atrás de um assunto para atualizar meu blog, mudei de idéia. E decidi publicá-lo aqui.

 

 OI DADINHO

O Jorjão me convidou p/ fazer um book de nu. Disse q é p/ uma revista famosa e q eu tenho chances nem falei ainda pro Waldemar pois já sei q ele vai virar uma fera hehe. Mas o q vc acha? Devo fazer frontal também?

 

Bjkas da Ka

Sinceramente não sei o que o Dadinho responderia. Mas eu respondi, na tampa: Faz! E azar do Waldemar!

 

PS.: Mas e o Jorjão, hein!? Book para uma revista famosa... Se não tiver a idéia de andar por aí dando bandeira com dinheiro na cueca, tem chance.
DELÚBIOS, VALÉRIOS E MANECAS...

 

Na última década do século passado, após o processo de impeachment do então presidente Fernando Collor, publiquei este texto no jornal Pioneiro, de Caxias do Sul, onde eu tinha uma crônica todas as segundas-feiras, no caderno Sete Dias. Remexendo nos meus arquivos, em um dia de gripe e de muitos chás, dei com ele aqui, incrivelmente atual e apropriado à situação política em que vivemos. De lá para cá, justiça seja feita, houve algum avanço na criação de mecanismos de combate à corrupção [como o fim do cheque ao portador, por exemplo, que hoje permite rastrear com mais eficiência o caminho do direito sujo], mas os corruptos continuaram na ativa, inclusive no governo FH, e continuam os mesmos. E a minha crônica também. Infelizmente.

 

 QUE MANECA!?

"Sim, isso eu não nego. Realmente foram depositados três cheques em minha conta corrente, um de 50, outro de 90 e outro de 40 milhões. Sou um homem honrado e de palavra e não tenho o hábito de negar a verdade. Mas vou esclarecer essa história de uma vez por todas: não tenho a menor idéia de quem depositou esses três cheques na minha conta, muito menos sei o motivo que levou essa pessoa a fazê-lo. Estou empenhado em esclarecer esses fatos tanto quanto vocês, em nome de minha honra e de minha dignidade pessoal. Eu não conheço nenhum Maneca, não. Aliás, ainda que mal  pergunte, que Maneca!? As ligações telefônicas desse tal Maneca para minha casa e para o meu escritório não têm nada a ver. O número do meu telefone está no catálogo e liga para mim quem quiser. Sobre as ligações do meu escritório para o número do Maneca, eu não sei de nada. Em nenhum momento me consta que as tenha feito. Até porque, nem sei quem é esse tal Maneca. Não se pode garantir que um prefeito ligou para o telessexo simplesmente porque na conta telefônica de seu gabinete aparecem ligações para o telessexo. Esse é um assunto que cabe ao contínuo esclarecer. Perguntem a ele. Da mesma forma os depósitos bancários. Se foi o Maneca quem depositou os cheques em minha conta, é um problema que vocês têm que esclarecer com ele. Afinal, se foi o Maneca quem depositou é porque o dinheiro era dele. Isso é uma questão meramente de lógica. Portanto, eu não sei de nada. A minha secretária disse que eu conheço o Maneca? Não. Está havendo uma pequena confusão. A Rosenilda certa vez entrou na minha sala e disse que o Maneca tinha depositado um cheque de  50 milhões em minha conta corrente e que era para mim repassar esse dinheiro às contas do Raimundinho, da Roselândia e do Araújo. E foi o que eu fiz. Vocês não comprovaram isso quando quebraram meu sigilo bancário? Pois então? Essa é a maior prova de que não estou mentindo. Quanto ao segundo depósito, procedi da mesma forma. Repassei-o ao Alarico e ao PJ, conforme o Maneca mandou. O terceiro eu aceitei como pagamento por esse serviço, o que me parece muito justo. Mas daí a dizer que eu conheço o Maneca já é demais. Quem disser que eu conheço o Maneca mente. Mente descaradamente. Outra pantomima, patuscada que reputo grosseira e irresponsável, é dizer que eu faço parte de algum esquema. Esquema de quem, eu pergunto? Do Maneca? Mas que Maneca, gente!? Digam-me quem é essa criatura que eu também estou querendo conhecê-la! Como poderei eu fazer parte do Esquema do Maneca se nunca vi o Menca na minha frente, nem mais gordo, nem mais magro!? Só porque o carro que a minha mulher usa foi pago pelo Maneca eu sou obrigado a saber quem ele é, poxa!? Mas que perseguição odiosa contra a minha pessoa, meu Deus! Isso é um problema dela e do Maneca. Eu não sei de nada. É hora de dar um basta a essa perseguição odiosa! Chega de tanto sofrimento, chega de injustiças, chega de falatórios. Sou um homem de bem, gente! Não posso permitir esse linchamento moral contra a minha pessoa. Sobre essa história do carrro eu estou tão surpreso e perplexo quanto vocês. Como é que uma pessoa que eu nem conheço pode ter dado um carro para minha esposa? Eis o questionamento que faço. Eu exijo uma explicação! Isso vocês terão que me esclarecer, doa a quem doer, custe o que custar. Que mania de ficarem me perguntando se eu conheço o Maneca. Perguntem pra turma dele, pô!... Se eu sei de quem são essas fotos e esse espartilho vermelho encontrados em minha gaveta? Claro que não! Não sei mesmo! Não tenho a menor idéia! Mas já estou imaginando o que  vocês vão dizer: que só pode ser da mulher do Maneca! Assim não dá, poxa! Sinceramente! Larguem do meu pé e parem de chafurdar na lama, pô!"

DO PAPEL PARA O CELULÓIDE - O RETORNO

 

Rolex de ouro está na película e agora fica apenas a espera da montagem, que deverá ficar pronta dentro de uns dois meses. Boa a experiência de ver os próprios personagens ganhando corpo, voz, movimento, com a cumplicidade e o valioso acréscimo criativo de atores e da direção. Como se trata de um roteiro baseado num conto inédito, alguns amigos ficaram curiosos para saber do que trata o filme. Pois, então, como blog – já afirmou meu amigo professor Urbano de Campos – é 80% por cento umbigo e 20% transpiração, destaco aqui um trecho do referido conto, cujo título original é Rolex de ouro chama a atenção de bandido.

 

 TRECHO

Meu chefe, o Verinaice, me chamou agora há pouco.

 

Que pesadelo!

 

Verinaice é o apelido dele aqui na empresa. Depois que a direção pagou um curso de inglês pra ele, ele passou a meter inglês em toda e qualquer conversa. Outro dia, fomos fazer um desses cursos de Qualidade Total e quando chegou a vez dele de mostrar um papel onde cada um devia escrever, com o mínimo possível de palavras, qual era a sua filosofia de vida, ele mostrou, cheio de amor pra dar, mas sempre com aquele seu jeito meio idiota de ser, um VERY NICE bem grande, como se estivesse acabando de descobrir a pólvora e a penicilina. E não soube dizer outra coisa pelo resto do curso. Verinaice pra cá, Verinaice pra lá, encheu o saco de todo o mundo, a nulidade.

 

Me chamou à sala dele e quis saber porque não havia saído nos jornais nenhuma notícia sobre a Semana Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho. Aquela era a décima quinta SIPAT da empresa, e a imprensa não havia divulgado nada até aquele momento. O Verinaice estava exaltado, o mimoso. Afinal, eu tenho um bom salário aqui na empresa pra quê? A semana estava terminando e nenhuma notícia, pô! Quase mandei o Verinaice tomar no cu. Mas deixei pra mais adiante. Se eu conseguir meter aqueles anos de trabalho no campo, mais uns outros de periculosidade, que conta quase o dobro, me aposento logo, e adeus, Verinaice!

 

- Você convocou os repórteres para a demonstração dos bombeiros? A televisão tem que estar aqui hoje, porra!

 

Abri a boca pra perguntar “que bombeiros?”, mas logo me dei conta. Eu havia tomado uma garrafa e meia de café pra espantar o sono. Maldito sono. Só vem quando não posso dormir. Não me agüentava em pé e o Verinaice ali, me enchendo o saco com SIPAT, bombeiros, não sei mais o quê. Os bombeiros, me lembrei a tempo, vinham à empresa, no meio da tarde, fazer uma demonstração sobre como proceder em caso de incêndio.

 

- Manda botar na capa! Essa é a nossa décima quinta SIPAT, pô! - ordenou o Verinaice, com a sua natural cara de songamonga de todos os dias úteis, domingos e feriados.

Ainda exigia capa, o mimoso.

ESTA AQUI ACONTECEU COMIGO

 

Há cerca de um mês, mais ou menos, recebi o telefonema de uma pessoa que se apresentou como a responsável por um jornal de bairro de Porto Alegre e que, gentilmente, me convidava para colaborar com o referido periódico. Coisa boa lembrarem da gente de vez em quando. Mas quem é do ramo sabe que produzir um texto para publicação demanda tempo e cuidado. Como o tempo anda escasso por estas bandas e o prazo de fechamento do jornal estava em cima do laço, de comum acordo empurramos o assunto com a barriga para a edição seguinte.

 

Nesta semana, para minha satisfação, tomei ciência de que, além de ser lembrado uma vez, eu não havia sido esquecido. Telefonava novamente a mesma pessoa, sempre muito gentil, renovando o convite feito anteriormente e com um pouco mais de prazo. Devolvi a gentileza e disse que aceitava colaborar com o jornal dela. Prometi uma crônica, o que não seria para mim tão trabalhoso, pois bastaria aproveitar alguma idéia de texto sobre Porto Alegre aqui do blog e que, certamente, não era de conhecimento de seu público leitor. Afinal, a audiência do Umbigo da Cobra, tenho certeza, não chega nem perto dos 15 mil exemplares do jornal cuja representante estava no outro lado da linha a me oferecer uma colher de chá.

 

Antes de encerrar o assunto, me lembrei daquela pergunta obrigatória de todo o jornalista em situação semelhante: que tamanho tu queres o texto? Ao que a minha gentil interlocutora respondeu: temos duas alternativas, uma página inteira e meia página. Calculei aqui com os meus botões que meia página seria o suficiente, se fosse o caso de o texto ficar menor, uma ilustração resolveria o problema e até cairia bem.

 

- Meia página é R$ 40 e a página inteira R$ 80 – acrescentou ela.

 

Ótimo, pensei cá com os meus botões, um tanto surpreso com a iniciativa dela de pagar pelo trabalho, coisa que, às vezes, nem os grandes têm o saudável hábito de fazer quando pedem um texto pra gente. Sempre ouvi falar que a qualidade e a influência dos jornais de bairro vêm crescendo e se consolidando nas grandes cidades brasileiras, mas não imaginei que seu grau de profissionalização tivesse chegado a esse ponto. Estava achando aquilo muito bom quando ela me perguntou, então, se podia passar na minha casa. Julguei desnecessário, eu mandaria, como sempre faço, o texto pela internet. Ela achou uma boa idéia. E quis saber:

 

- O pagamento pode ser por depósito bancário?

 

- Claro que, sim! – respondi, da forma mais afável possível. 

 

Foi nesse momento, então, senhoras e senhores do meu Brasil, que começou a ruir o meu pequeno e recém-erguido castelo de sonhos. E creio que o dela também.

 

- Então anota aí o número da nossa agência – me disse a moça.

 

 ESCRITORA

 

Mantive o bom humor, não baixei o nível, tratei-a com o mesmo tom de voz com o qual a vinha tratando desde o primeiro telefonema, ou seja, com a gentileza que as damas merecem, não importando a circunstância. Mas expliquei que, de forma alguma, eu tinha o costume de pagar para escrever, mesmo se tratando de um importante e conceituado jornal como aquele em questão. Com o que ela ficou um tanto surpresa. Perguntei se ela era jornalista e ela respondeu que não, escritora.

 

- Ah, bom!
DO PAPEL PARA O CELULÓIDE

 

O diretor Beto Rodrigues está rodando desde ontem [15/07], aqui em Porto Alegre, o curta Rolex de Ouro, que tem no elenco Tarcísio Filho, Zé Victor Castiel, Ingra Liberato e... entre outros, este neófito blogueiro que vos escreve. Se o amigo leitor entender que é demais para o seu gosto eu estar integrando um elenco desse quilate, garanto que não e adianto que tem mais: não por coincidência, o roteiro de Rolex de Ouro é de autoria deste curioso escrivinhador que também, agora, começa a meter a sua colher de pau no teflon da sétima arte.

 

Mas não pensem que a idéia de ir para frente das câmeras foi premeditada. De livre e espontânea vontade, num momento como este que o país atravessa, escrever um roteiro para si mesmo seria mais que severinar o celulóide com uma espécie de nepotismo de causar inveja nas hostes do serviço público brasileiro. A idéia é do Beto, o diretor, que é quem verdadeiramente manda num filme. Até porque, minha fala, vocês vão concordar, não é lá muito extensa e complicada. É uma frase apenas, para a qual, embora seja uma velha conhecida, já estou me preparando com exaustivos exercícios diários de dicção e interpretação:

 

- Ih, esse daí já tinha virado churrasco!

 

E pronto. Acabou, deu, fui – te cuida, Brade Pite!

 

 CONTO

 

Rolex de Ouro é ainda baseado num conto meu, intitulado Rolex de ouro chama a atenção de bandido e está no livro inédito Transversais do tempo que, espero, saia em breve aqui do meu arquivo Word e pare de me incomodar de uma vez por todas. O filme começou a ser rodado em novembro do ano passado, com o mesmo elenco, mas por problemas técnicos precisou ser refeito. E é o que o Beto Rodrigues e a produtora Panda Filmes estão fazendo agora, com redobrada disposição para espantar a macumba.
OFICINA DE CONTOS

 

Encerramos nesta semana os trabalhos com a primeira turma da minha Oficina de Contos, na Casa de Cultura Mário Quintana. Foram dois meses de encontros, todas as quartas-feiras, nos quais, além de exercitarmos a escrita, aprendemos muito uns com os outros, num ambiente onde a curiosidade, o debate, os questionamentos e o interesse pelos assuntos da literatura foi o que de mais enriquecedor aconteceu. Saímos de lá confiantes e cientes de que o principal caminho a ser seguido por quem quer ser escritor é o contínuo exercício da criatividade e da escrita, guarnecido, na mesma proporção, pela leitura de bons e autores.

 

 BLOG

 

Meus agradecimentos aos colegas Arno Júnior, Lílian Cardon, Giuliano Balardin, Carlos Besen, Manoel Borigo, Amaro Mylius, Margarete Marques, Ana Mello, Maria Luiza Forneck, Crisanto Pereira, André Rodrigues, Maria Valéria Schneider, Gabriela de Camargo, Alexandre Allende, Anderson Lima Webber e Flávia Cunha. A Ana Mello está editando um blog com os trabalhos da turma e, quando entrar no ar, será anunciado aqui.
A ISONOMIA DA SACOLAGEM...

 

Trecho de texto do jornalista Moisés Mendes, publicado no jornal Zero Hora de hoje (14/07), página 5, sobre a megaoperação da Polícia Federal na Loja Daslu, em São Paulo, o templo sagrado da peruagem brasileira:

“Tudo no mercado das falcatruas tem seu preço – sacolas, malas, bolsos, bolsas. O petebista diretor dos Correios Maurício Marinho enfiou R$ 3 mil no bolso. Deputados do PP e do PL são acusados de receber R$ 30 mil por mês. Marcos Valério enfiava milhões de dinheiro vivo em malas. O assessor do PT no Ceará enfiou US$ 100 mil nas cuecas. O bispo e deputado pefelista José Batista Ramos da Silva estava enfiando R$ 10 milhões num avião. A Daslu, conforme as suspeitas, estaria enfiando contrabando na peruagem.

 

A espetacular ocupação da Daslu – onde o coitado do Marinho compraria, com seus R$ 3 mil, pouco mais que um par de Havaianas com lantejoulas – desvia o foco para a região dos ricos paulistas. Sai de cena a chinelagem dos dólares em cuecas. Entra em cartaz a grã-finagem das cuecas cotadas em dólar.”
MAIS PARA COFRINHO QUE PARA DIZIMÃO

 

Deu no jornal: “Cartas de amor de crianças e calcinhas encontradas pela polícia em uma igreja evangélica no interior de Santo Antônio da Patrulha, Litoral Norte do RS, lavaram um pastor à prisão, sob suspeita de estupro.” O pastor [desses que tiram o diabo do corpo da gente] se defende: “Sou inocente. Guardei as cartas para o caso de precisar mostrar algum dia que eu era procurado por ela [uma das meninas que o acusam]. As calcinhas encontradas na igreja eram de fiéis que trocavam a roupa para se batizar e as deixavam ali.”

 

Tá bom, meu querido! Minha bisavó, que há muito já partiu pra outra, não vacilaria em pronunciar seu bordão preferido se aqui estivesse para ouvir as santas palavras do inocente pastor:

 

“Depois que inventaram a máquina de debulhar milho, meu filho, eu não duvido de mais nada.”
PAI CORUJA

 

Depois que criei o Umbigo da Cobra por razões que um dia ainda hei de explicar, passei a freqüentar blogs de todos os matizes e teores, na tentativa de conhecer o espírito blogueiro e, assim, me situar na área e seguir o meu caminho sem estar muito às margens do espírito da coisa. Tem de tudo. Do conto erótico de péssima qualidade ao depoimento de mães e pais corujas sobre as raras qualidades intelectuais de seus filhos. Como no conto erótico de péssima qualidade sou um reconhecido fracasso, optei, hoje, por dois episódios de pai coruja impressionado com a incomum e extraordinária esperteza de seus iluminados rebentos.

 

Da Luiza, quatro anos, diante de um programa do Discovery Channel:

 

- Pai! Pirineus é aquele lugar cheio de voltinhas onde eu vomitei na cabeça do Dudu? Naquele carro azul que tu comprou e que não te deixaram trazer no avião?

 

Do Dudu, sete anos, depois de uma aula de religião no IPA, enquanto descíamos a lomba da rua Santa Cecília, no caminho de casa:

 

- Pai! Tu conhece aquela história da multiplicação dos pães?

 

- Sim, filho, conheço...

 

- Aquilo alguém viu com os próprios olhos ou foi Jesus quem espalhou?

 

 SAIA JUSTA  

 

Sei, sei, meus queridos! “Pano rápido” é um dos maiores chavões que a humanidade conhece e uma das maiores bengalas que o cronista medíocre tem em mãos na hora de fechar uma crônica também medíocre. Mas tem como fugir de um pano rápido-rapidíssimo numa saia justa de tamanhas proporções? De minha parte, afirmo que não. 

Pano rápido, por favor! E vamos em frente que atrás vem gente.

PS.: Em vez e pano rápido, pode ser sinal dos tempos...

O SOL DOS INCAS

 

Agora sim dá para dizer que o inverno chegou de vez. Com um certo atraso, mas chegou. E inverno dos bons, seco e iluminado, com aquele sol de viés, acolhedor, que lembra as lagarteadas interioranas junto às paredes externas das casas, depois do almoço, ao lado de uma bacia de bergamotas e laranjas de umbigo. Outro dia, no primeiro frio que andou fazendo por aqui, ao ler um belíssimo texto do Nei Duclós (link ali ao lado) sobre o inverno, me lembrei de uma crônica do Rubem Braga, escrita na época em que ele morou no Chile, sobre o temor dos povos primitivos da Cordilheira de que o sol se fosse embora para sempre, rumo ao Norte, e o mundo se transformasse num inverno definitivo e sem luz.

 

 UM TRECHO  

"Os incas sentiam isso e mandavam construir, no alto das montanhas, imensos relógios de sol. Dia a dia eles iam marcando a marcha do sol para o Norte – a projeção cada vez mais longa e mais breve de sua sombra para o Sul. O frio na montanha era cada vez mais doloroso, os dias cada vez mais curtos. Mas um dia o sol deixava de marchar para o Norte. Como que se fixava um pouco em um ponto certo do horizonte – e depois, lentamente, fatalmente, vinha voltando. Os Incas haviam ‘amarrado o sol’, como quem amarra pelo rabo um leão velho. O astro, obediente, chegando a um certo ponto, voltava..."

A crônica está no livro Ai de ti, Copacabana.

UM SÁBADO NO CENTRO DA CIDADE

 

Às vezes somos levados por essa nossa natureza de achar que o bom mesmo é o que não está ao alcance da mão e cometemos algumas injustiças com a cidade onde sentamos praça. Volta e meia somos tentados a dizer que aqui nos falta qualificada programação cultural, que agitação de verdade só se vê em tal lugar, que vida cultural mesmo se leva é lá, bem longe, onde não podemos estar. Com relação a Porto Alegre isso não é verdade. Temos muitos eventos aqui, uns maiores, outros menores, uns recebendo boa divulgação da mídia, outros não, uns com leis de incentivo, outros à margem dela, mas, se pensarmos bem, não temos motivos para grandes queixas.

 

Sábado último, pela manhã, a convite do Valério Campos e do Gustavo Ventura, participei da quarta edição do programa Bom dia, Livro – na livraria Ventura, centro de Porto Alegre, um evento que é promovido pela própria livraria e pela editora Idéias a Granel. Também estavam lá como convidados, num bate-papo dos mais agradáveis, os poetas Celso Sant’Anna e Luciane Frizzo, o jornalista Luiz Reni e o Santiago, nosso mais premiado chargista e cartunista de todos os tempos.

 

O Bom Dia, Livro se realiza no primeiro sábado de cada mês, e sua maior e mais saborosa característica é uma informalidade que vai além das próprias fronteiras da Ventura, tradicional e qualificada livraria de Porto Alegre, tocada pelo Gustavo e especializada em livros novos e usados. Digo além das fronteiras porque, quando o povo começa a chegar e faltam cadeiras, alguém corre até a Noygandres, uma outra das tantas livrarias de usados do centro, uma quadra adiante, e o Zeca Poly presta o socorro necessário ao bem estar dos presentes. Um espírito de solidária amizade que nos chega de forma gratuita, sem as graças da publicidade e seus métodos às vezes pouco confiáveis de convencimento.

 

Entre estantes e mesas abarrotadas de livros, enquanto os clientes entram e saem, organiza-se, então, um círculo de conversas que, quando a gente se dá conta, faz o tempo passar sem ao menos nos advertir sobre o sagrado momento de alimentar as fraquezas da carne, a hora do almoço. Conversamos sobre processo criativo, a angústia da influência e o medo (que descobri ser comum a todos nós) de estarmos criando algo que já foi inventado muito antes de nós. O Santiago até revelou o processo de criação de um de seus cartuns premiados no Japão e da angústia que o envolveu até ter certeza de que ninguém o havia desenhado antes. Ele teve a idéia numa visita ao Louvre, anotou e a desenvolveu depois, quando voltou a Porto Alegre. Trata-se de um cartum no qual os papéis se invertem durante uma exposição e os personagens de quadros famosos é que se tornam os observadores dos visitantes presentes ao museu.

 

 TRANSGRESSÕES  

 

Depois da conversa, do chimarrão e do café com amanteigados, uma obrigatória caminhada pelos sebos do centro que nos levou ao encontro de seus obstinados garimpeiros de primeiras edições. E, finalmente, porque ninguém é de ferro, uma concessão ao nosso lado mais primitivo de ser: um almoço tardio tendo como beneplácito a integridade de um sábado morrendo lento sobre as águas do Guaíba quase em chamas, no outro lado do centro. Devoramos um espaguete al pesto com vinho de garrafão, no restaurante do Chico, na esquina da Floriano com a Duque, por onde se chega subindo uma velha escada de madeira e de onde, da sacada que dá para o Sul, pode-se ver um pedaço reduzido, mas real e autêntico, da Cidade Baixa se preparando para mais uma noite de muitas mesas nas calçadas e iminentes transgressões compartilhadas. Isso tudo ali, no centro da cidade, não muito longe de onde possamos estar, seja lá da zona sul ou daqui dos altos do Rio Branco e ao pé do Moinhos de Vento.

A SOMBRA QUE TAMBÉM É LUZ

 

Revista APLAUSO [Edição 65]

LIVROS / Tailor Diniz 

O desafio inicial da poeta Maria Carpi na arte da criação poética é a construção primeira de uma atmosfera onde possa erguer o denso e iluminado cantar de seus versos. Imbricando palavras e metáforas, na ranhura dos poemas, sua fala envolve o leitor de forma avassaladora e sumária, arrancando dele toda e qualquer possibilidade de recusa. É assim, pois, que se faz As Sombras da Vinha, seu mais recente livro - é no tijolo ainda abrasado de cada sílaba que Maria Carpi funda o poema, arranha-o de claridades e, em ação simultânea, como ela própria anuncia ser a função do poeta, se transfigura em mediadora entre a luz e a sombra.

 

Essa atmosfera construída na sutil  intersecção entre claridade e penumbra é um lugar que acolhe e inquieta, que absorve e se impõe sem condescendências. Ali o aroma da poda recente se mistura ao sumo da uva por nascer, ao suor do vinhateiro e do vinhador, ali o cheiro do mosto é um prenúncio nem sempre doce do líquido despejado na futura transparência do cálice, ali os sons da pele eriçada desenham o silêncio dos  perfis, trespassam os vãos de folhas, vimes e cachos e, na hora propícia, “que é feita de amores e declínios”, surpreende, sem sobressaltos, “a sombra inconsútil” do amor compartilhado. Está criada a atmosfera, está aberta a estrada, ergue-se o monumento, crava-se o poema na branca folha do papel e vinha-se a poesia de sabor, de luzes e de silêncios. A cada verso, a cada poema, a cada retorno à pagina lida, a impressão crescente, irretorquível, é de que a autora, exausta e realizada, precisou descansar no sétimo dia da criação.

 

O título do livro foi, certamente, o desafio inicial a ser enfrentado por Maria Carpi em sua gigantesca empreitada. Como falar de sombra sem antes criar a luz?, é a primeira pergunta que parece inquietar sua alma poética. E assim se fizeram, na comunhão da poeta com seu próprio canto, as páginas de As Sombras da Vinha. Ali, onde “dorme a caneta como enxada”, está cravado o marco maior de uma impressionante e monumental gênese, a gênese do supremo elemento formador da sombra, da sombra que nem sempre é sombra, da sombra que também pode ser luz, pois afirma a poeta, com a segurança de quem sabe a vinha e o vinho, que a “luz que não foi sombra não é luz”

 

Puro produto dessa intimidade com o fazer poético e a eloqüente competência para transformar o obscuro em claridade, a luz "vinhada" pela autora na construção da sombra é algo substantivo, palpável, denso, é luz que está tanto no mel que brilha sobre o pão quanto num redemoinho de pólens, na "fagulha expatriada" das esferas, na textura das uvas acendidas "com o abrir das pálpebras", numa "alquimia de sol e chuvas", no "sol soterrado da pedra", no "estalo do fogo na seiva, "entre as safras da luz e da escuridão", na "crina dos parreirais", na "refração solar do lenho".

 

Os poemas de Maria Carpi vão além da metáfora apropriada e do oxímoro que também é belo e marcante, “qualquer trânsito é ficar”, “a arte da fuga é ali permanecer”; mais que isso, ela dota de sons, de cores e de sabor o puro abstrato (“arrulhos de mormaço”, “o gosto da inédita vindima”, “a sonoridade da luz”), de forma a nos convencer da possibilidade de ser real e palpável a contundência de sua criação.  Nono livro de Maria Carpi, As Sombras da Vinha é um livro de cabeceira, para infinitas e saborosas e inquietantes leituras. A primeira para atender à obrigação do ofício, as futuras e as muitas demais para o prazer e a comunhão.
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