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Um testemunho sobre a censura no Brasil

 

Censura e outros problemas dos escritores latino-americanos

Antonio Callado

Editora José Olympio

98 páginas

R$ 20

Antonio Callado foi um combativo jornalista que se insurgiu contra a censura no Brasil, de Vargas aos militares pós-64. Era um estudioso, não buscava as causas da censura apenas no lado do poder. Procurava ir além, no estágio quase inconsciente do censurado que, por se omitir, colaborava com um estado de espírito no qual a “auto-estima democrática” não era um fenômeno presente. Em boa hora, a editora José Olympio publica três conferências proferidas por Callado em 1974, sob o título Censura e outros problemas dos escritores latino-americanos. Em boa hora porque, de tempos em tempos, temas como esse precisam ser lembrados para não serem repetidos.

Callado começa por fazer uma análise da sua trajetória de jornalista e escritor. Fala das viagens que fez e que marcaram profundamente seu modo de pensar - duas delas típicas do jornalista latino-americano da época. A primeira caracterizava-se como de educação e formação de caráter, feita normalmente à Europa. Nela havia um movimento de fuga e de afastamento das injustiças sociais, do caos da vida política do continente e das ditaduras: “Vim para a Inglaterra, para Londres, em 1941. [...] Em vez de ficar no Brasil escutando os louvores - e só em português - à ditadura Vargas, na BBC da época da guerra eu podia ouvir todas as ditaduras do mundo serem atacadas em não menos do que 57 diferentes idiomas e dialetos.”

A segunda viagem era de retorno ao âmago de seus respectivos países. Uma jornada que Callado classifica como de espírito contrito e cheio de remorso, na qual o jornalista nadava contra a corrente, subia rios e quedas, em busca de sua própria identidade. Foi assim que nasceu Quarup, um dos romances mais reveladores da identidade brasileira e das utopias nas quais acreditava seu autor e os intelectuais da época. Especificamente sobre a literatura brasileira, Callado entende que a mesma reflete, em sua ambigüidade, a estrutura tradicional de repressão existente na sociedade latino-americana: “Nossos pobres escravos foram os últimos negros a se libertarem em todo o mundo”, mas no Brasil “nunca se produziu algo como, digamos, A cabana do pai Tomás”; “Alencar foi um grande romancista; Machado foi um gênio. Nenhum dos dois [...] optou por abordar o destino dos escravos ou demonstrou qualquer curiosidade por aquele vasto Brasil que se espalhava, governado a partir do Rio por um monarca louro e de olhos azuis e seu séqüito formado por barões do café e do açúcar”; “O único livro que descreve a era Vargas e que se destaca pelo seu valor é Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos.”

Callado ainda aborda outros tipos de censura, que podem ser chamados de indiretos, como o controle do papel ou o uso da publicidade oficial como forma de pressionar as redações. São textos significativos para se conhecer as agruras de uma época, mas que não deixam de ser atuais. Pelo que se conhece do obstinado Antônio Callado na sua luta em defesa da livre criação, certamente hoje estaria entre aqueles que vêem nas leis de incentivo - que permitem empresários abater dos impostos a verba investida em cultura - uma espécie de censura surda praticada pelo poder econômico, que só viabiliza projetos de seu interesse. Enquanto alguns eventos de conteúdo cultural duvidoso saem do papel, outros de qualidade superior, mas de pouca repercussão na mídia, mofam nas gavetas, mesmo aprovados, a espera de interessados em neles investir. Isso, diria Callado, limita o alcance do criador, tira dele “o ânimo de tentar qualquer coisa nova e de se vincular à vida real do país.” O que, cá entre nós, também vem a ser uma brutal forma de censura. [TD]

[Revista APLAUSO - edição 78]



Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 08h52
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