Em recente visita a Porto Alegre, o escritor moçambicano Helder Macedo falou sobre uma espécie de estado anestésico ao qual estão submetidos os jovens de hoje, especialmente em função das novas formas de comunicação via tevê e internet. Na sua opinião, a ausência de utopias faz com que as gerações atuais sejam formadas por criaturas sem causa, de idéias rarefeitas, o que lhes tira a aptidão para o exercício da criatividade e da cidadania. Entende Macedo que a escassez de grandes lideranças, hoje, tem nessa realidade de ausência de sonhos uma das grandes causas.
A Idade da Paixão, de Rubem Mauro Machado, não deixa de ser uma ilustração desse pensamento, pois é no início dos anos 60 que o autor situa a sua história, uma década marcada pela manifestação de idéias e de opiniões, na qual a juventude, via movimento estudantil, participava de forma ativa da vida política e cultural do país. Corroborando com Macedo, pode-se dizer que as cabeças mais pensantes da política e da cultura brasileira atuais foram iniciadas ainda nesse período.
No seu romance, Rubem Mauro Machado pinta um retrato que tem como pano de fundo momentos decisivos na vida política do Brasil, a partir da renúncia de Jânio Quadros da Presidência da República, seguida da chamada Legalidade, movimento fincado no Rio Grande do Sul, que, levantando a bandeira do respeito à Constituição, garantiu a posse de João Goulart no cargo de Presidente do Brasil. O cinema vivia seu auge, o rádio e o disco - como diz o crítico José Hildebrando Dacanal na orelha de outro livro de Rubem Mauro, O Inimigo na Noite - “eram os símbolos da modernização urbano-industrial que começava a invadir todo o centro-sul do Brasil, na trilha da inserção definitiva do país no sistema capitalista internacional.”
Aliás, O Inimigo na Noite, publicado também em 1985, não deixa de ser um ensaio para o vôo mais longo que vem a ser A Idade da Paixão - ambos se passam no mesmo período: um em 1960, o outro em 1961. Seus protagonistas são dois jovens envolvidos com esses glamurosos meios de comunicação que, para aqueles economicamente menos privilegiados, era a única forma de inserção a um mundo de horizontes mais distantes das pequenas cidades interioranas onde viviam. Dario Alves, o personagem principal de O Inimigo na Noite, tem um programa de rádio e domina os assuntos relativos à música e ao cinema com desenvoltura. Essa era a atividade com a qual todo e qualquer jovem de classe média sonhava exercer.
Forjado na mesma têmpera de seu antecessor Daria Alves, o protagonista de A Idade da Paixão [que é natural de Santa Maria, cidade onde se passa a ação de O Inimigo na Noite] quer mesmo é ser jornalista e escritor, embora predestinado a cursar Direito como o pai. Lembra Dacanal que ser locutor, programador, crítico de cinema ou jornalista era dar um salto sobre o limitado horizonte provinciano da época. Não é por acaso, então, que o personagem-narrador de A Idade da Paixão agarra-se à perspectiva de um dia vir a escrever textos de sucesso, tirando daí a energia necessária para enfrentar uma grande decepção amorosa e transpor os naturais obstáculos que um estudante interiorano, morador de pensão na capital, enfrenta numa Porto Alegre de indisfarçáveis contrastes econômicos e sociais.
A Idade da Paixão foi publicado originalmente em 1985 e agora ganha nova edição, revista pelo autor, em comemoração aos 20 anos do Prêmio Jabuti de Melhor Romance, edição de 1986. [TD]
[Revista APLAUSO - edição 80]