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A colheita de quem planta ventos

 

Um dos autores indispensávies para quem pretende seguir a carreira de escritor é o argentino Alberto Manguel. Gosto muito de Os livros e os dias, publicado no Brasil em 2005. Para escrevê-lo, Manguel escolheu doze livros importantes na sua formação profissional e pessoal e dedicou um mês para a leitura de cada um. Enquanto lia, Manguel ia fazendo observações intercaladas sobre o texto, comparações com a primeira leitura, reflexões filosóficas e considerações sobre o momento em que os leu pela primeira vez e a atualidade. O resultado é um livro fascinante não apenas pelo prazer da leitura, mas pelo caminho que nos abre para entendermos as entrelinhas de um texto e o seu processo criativo. Quando ocorreu o atentado ao WTC, por exemplo, Manguel encontrava-se num local onde não havia TV, e era informado dos acontecimentos pela sua filha, que estava no Canadá e sentia uma urgente necessidade de compartilhar com alguém o seu sentimento de horror e perplexidade. Manguel aproveitou esse momento para refletir sobre as relações de poder desenvolvidas no mundo ao longo dos tempos.

 

 Quem planta...

 

O livro com o qual relaciona o atentado é Memórias de além-túmulo, de François-René de Chateaubriand, que ele lia no mês de setembro do ano posterior ao fato, quando preparava Os livros e os dias. Diz Manguel sobre a destruição das torres: “O Ocidente reconhece o Outro apenas para desprezá-lo melhor, e depois fica atônito com a resposta que recebe. [...] O horror sentido diante de atos como os do ano passado ecoa retrospectivamente ao longo da história: o horror dos árabes diante da brutalidade dos primeiros cruzados; os incas descrendo de que qualquer coisa humana pudesse ser tão sanguinária quanto as hordas de Pizarro; os aborígines da Tasmânia incapazes de colocar em palavras (pois sua língua era desprovida de tais termos) a bestialidade dos colonizadores europeus.”

 

Seria mais ou menos como dizer "quem planta, colhe" ou "quem semeia vento colhe tempestades". Alberto Manguel, quando jovem, em Buenos Aires, lia para Jorge Luis Borges, o que, em parte, explica o fato de seus livros serem verdadeiras celebrações à leitura.



Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 08h02
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Marcando presença

 

"Nada mais sugestivo para concluir este breve olhar sobre Transversais do tempo que o conto A saideira, que abre o volume. Como estrutura narrativa, construção de trama e de personagens, é o mais bem resolvido do livro. O sussurrar da personagem no momento derradeiro do texto é surpreendente e dá ao relato uma dimensão que o ressalta do restante do conjunto."

 

Trecho da resenha sobre meu livro Transversais do tempo [Bertrand Brasil], de Moacyr Godoy Moreira, publicada no jornal Rascunho, de Curitiba, edição nº 83. Clique aqui para ler o texto na íntegra.

 

Em 2007, Transversais do tempo ganhou o prêmio Açorianos de Literatura, melhor livro de contos publicado no Rio Grande do Sul. Transversais ganhou também o prêmio de Melhor Livro de Contos, edição 2007, da Associação Gaúcha de Escritores - AGEs.



Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 16h22
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O último da trilogia

 

A Babilônia

José Clemente Pozenato

Editora Maneco

344 páginas


Com o lançamento de A Babilônia, José Clemente Pozenato encerra a trilogia que trata da imigração italiana na região de Caxias do Sul, iniciada com os romances A Cocanha e O Quatrilho - este último transposto para o cinema, o que valeu ao filme a indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro, edição 1996. A saga começa em 1883, quando um grupo de italianos tomados pela miséria deixa a Itália em direção ao Brasil para, como se dizia na época, “fazer a América”. É com a esperança de aqui encontrarem o paradisíaco “Paese di Cuccagna”, onde rios de vinhos são transpostos por pontes de melão, e aves assadas despencam do céu, que esse grupo de homens, mulheres e crianças famintas embarca, deixando pátria e parentes para trás, com uma única certeza na bagagem: a de que aquela era uma viagem sem volta.

Em O Quatrilho, embora a atenção do autor esteja também voltada para as agruras e dificuldades de toda ordem que aqui encontraram esses imigrantes e seus primeiros descendentes, se sobressai, como marca mais forte do romance, um enredo de características singulares, que tem como referência o quatrilho, um jogo tradicional da época. A fortaleza desse enredo, que começa com uma traição conjugal e culmina com uma troca de casais, faz, ao natural, com que essas questões de adaptação à terra e de sobrevivência, uma preocupação constante do autor, sejam jogadas a um segundo plano.

O terceiro volume da trilogia, não poderia ser diferente, trata de uma espécie de espólio do romance anterior, pois ocupa-se daquilo que o autor deixou em aberto - ou que, por questões de estrutura, não pôde ser focado com a mesma intensidade dedicada ao núcleo dos protagonistas: o destino de Mássimo e Teresa, que, ao fugirem da cidade, deixaram o foco centrado em Ângelo e Pierina, esta, talvez, a personagem mais forte e psicologicamente mais bem construída da história. Para isso, Pozenato se utiliza de uma enredo intrincado e sugestivo, que é a questão legal dos meio-filhos diante da morte de um dos meio-pais - aliadas a isso as dificuldades naturais de convivência de irmãos e meio-irmãos sob o mesmo teto. Em O Quatrilho, após a fuga de Mássimo e Teresa, ficam com o casal Angelo e Pierina, os dois filhos de Pierina e o ex-marido. Esse fato cria uma situação de extrema delicadeza a ser resolvida, especialmente sob o ponto de vista legal, com a morte de Angelo, já que os dois não são seus filhos, são filhos apenas de Pierina. A se juntarem a essas peculiaridades as feridas ainda abertas pela traição e o fato de os dois irmãos incorporarem um estereótipo literário que, já na Bíblia, estava presente na pele de Caim e Abel.

Com pleno domínio narrativo, Pozenato, aos poucos, vai situando a história num período definido da vida política brasileira, que começa com as conseqüências do crash de 29 sobre a economia local, passa pelos bastidores da chamada Intentona Comunista, da qual participa Lourenço, um dos filhos de Pierina, tem como ponto de discussão freqüente as influências de Mussolini entre os italianos da região, e se encerra durante a Segunda Grande Guerra. O prazer da leitura é garantido, também, pela estrutura montada pelo autor para prender o leitor até a última página. Pazenato, como já se percebeu nos dois romances anteriores, segue a receita do folhetim e da justaposição de focos narrativos, na qual cada capítulo é construído de maneira que, no seu final, uma questão fique sempre aberta, sugerindo que o seu esclarecimento virá logo no capítulo seguinte.

A Babilônia fecha um trilogia na qual, sem dúvidas, O Quatrilho é o núcleo de atração e em torno do qual orbitam as duas outras obras da serie. [TD]

[Revista APLAUSO - edição 81] 



Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 13h11
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