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A família como núcleo de conflitos

Orfãos do Eldorado

Milton Hatoum

Companhia das Letras

112 páginas


Milton Hatoum é hoje o nosso escritor brasileiro de ponta. Quatro livros que mantém o mesmo nível de qualidade e uma temática que, embora se repita, apresenta-se sempre renovada e funciona como uma espécie de aprofundamento da forma como foi abordada anteriormente. O núcleo familiar é o centro do universo ficcional de Hatoum, com algumas pequenas variações entre as partes em conflito. Seus quatro livros podem ser vistos, inclusive, como um bloco só, uma obra única, de rara beleza e densidade psicológica, que tem como pano de fundo imbricações sociais, políticas e econômicas de uma região do país, sob o ponto de vista literário, pouco conhecida dos brasileiros.

Em Dois irmãos, eleito pela crítica como o melhor romance brasileiro dos últimos quinze anos, os contrastes recaem sobre dois irmãos que se odeiam, Omar e Yaqub, e alimentam um conflito familiar de melancólicas conseqüências. Em Cinzas do Norte, o conflito ocorre entre pai e filho, assunto que também não é novidade em literatura. Quanto ao novo livro de Hatoum, Órfãos do Eldorado, há na sua estrutura, na relação de contrastes entre os personagens principais, uma sensível proximidade com Cinzas do Norte. Tanto no primeiro como no segundo, o conflito ocorre entre pai e filho. Em Cinzas do Norte, o pai não aceita a vocação do filho para as artes. Diante da incapacidade do pai para entendê-lo e aceitá-lo nas suas escolhas, o filho enfrenta-o e se rebela. Vai consumindo-se aos poucos, de forma que sua própria vida acabe sendo o caro preço da vingança. Em Órfãos do Eldorado, o filho nega-se a ser o herdeiro perfeito, aquele idealizado pelo pai, e como vingança, após a morte deste, vai se desfazendo de todo o patrimônio da família. Comporta-se assim, também, levado pelo amor a uma jovem, cuja personalidade e relação com as lendas da região amazônica lembra personagens marcantes de Isabel Allende e Gabriel García Márquez.

Interessa também na obra de Hatoum o espaço no qual a sua ficção se desenrola, Manaus e o entorno do rio Amazonas, tendo como ingredientes uma cultura construída entre portos, mercados, embarcações de transporte, grandes fazendas, teatros, palácios e vilas ribeirinhas. Esses efervescentes espaços são verdadeiras ilhas nas quais se desdobram outros pequenos núcleos de ação: portos habitados por criaturas sofridas que perambulam entre o subemprego, espeluncas e bordéis; embarcações que sobem e descem o rio carregando a matéria prima que movimenta a economia da região, especialmente a borracha; grandes fazendas administradas por senhores pouco éticos com fortes e sistemáticas influências políticas; finos teatros que recebem uma elite muitas vezes mais preocupada em praticar a arte das aparências, e os arrabaldes onde vive o povo simples e sobrevivente das relações, quase sempre injustas, entre capital e trabalho. Todos esses pequenos núcleos acabam se cruzando na pele de personagens-chave, com a preponderância dos interesses do mais forte, mesmo que as partes em conflito estejam na mesma trincheira, um palacete em Manaus ou uma grande fazenda no interior do Amazonas, e sejam elas dois irmãos ou um pai e um filho.

Outra característica de Milton Hatoum é a ambigüidade sobre os laços familiares de certos personagens. Em alguns casos a dúvida permanece, como a paternidade do narrador de Dois Irmãos ou os verdadeiros vínculos entre o pai de Arminto Cordovil e a jovem por quem ele se apaixona e que colabora com a sua bancarrota, em Órfãos do Eldorado. São dúvidas que cativam ainda mais o leitor, que alimentam a reflexão e tornam cada novo livro de Milton Hatoum uma oportunidade de reler um texto de altíssima qualidade e ir mais fundo naquilo que a literatura brasileira tem de melhor e mais consistente.

[Revista APLAUSO - edição 92]



Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 13h52
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Dica de oficina

 

De um personagem de Norman Mailer, extraído do livro Os machões não dançam, editora Nova Fronteira, página 117:

 

“Dizem que Updike foi pintor, e pode-se ver isso em seu estilo. Ninguém examina superfícies tão minuciosamente quanto ele, e usa os adjetivos com mais precisão do que qualquer outro escritor da língua inglesa em nossos dias. Hemingway aconselhou a não usá-los, e Hemingway estava certo. O adjetivo é a opinião do autor sobre o que está acontecendo, nada mais. Se eu escrevo ‘um homem forte entrou na sala’, isso significa apenas que ele é forte em relação a mim. A não ser que eu tenha descrito minha pessoa para o leitor, posso ser o único cara no bar impressionado pela força do homem que acabou de entrar. É melhor dizer: ‘Um homem entrou. Segurava uma bengala e, por alguma razão, a quebrou ao meio como se fosse um pequeno galho de árvore.’ Naturalmente, a frase fica mais longa.”



Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 15h01
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Ainda Gore Vidal

 

Outro trecho do livro De fato e de ficção, ensaios contra a corrente, citado no post ali de baixo, que aborda a questão das adaptações de obras literárias para o cinema. Agora sobre a relação entre roteiristas e diretores, e as possibilidades e impossibilidades de um e de outro na realização de um filme:

 

“Nessa área poucos diretores possuem a modéstia de Kurosawa, que disse recentemente: ‘Com um roteiro muito bom, até mesmo um diretor de segunda classe é capaz de fazer um filme de primeira classe. Mas com um roteiro ruim, até um diretor de primeira classe é incapaz de fazer um filme que seja realmente de primeira classe.’”



Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 13h37
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Cinema e literatura

 

Há muito tempo venho imaginando o que seria do cinema, do brasileiro em especial, se uma praga de traças assolasse o planeta terra e destruísse todas as bibliotecas e livrarias aqui estabelecidas. O cinema entraria em preocupante crise de criatividade. Não haveria mais livros para serem adaptados e nossos diretores teriam que espremer boas histórias das próprias cabeças. Algo muito grave, não tenho dúvidas. 

 

Na última feira do livro de Porto Alegre garimpei num sebo o livro De fato e de ficção, ensaios contra a corrente, de Gore Vidal, editora Companhia das Letras, uma coletânea de leitura prazerosa e proveitosa ao mesmo tempo. Do ensaio “Quem faz o cinema?” destaco dois trechos sobre o fato de a autoria de um filme, hoje, ser atribuída tão-somente ao diretor, mesmo que se trate da adaptação de um texto literário de autor conhecido:

 

“Essa situação seria mais aceitável se os diretores de filmes tivessem se tornado auteurs. Mas quase todos eles estão mais do que nunca afastados da arte - se não da vida. A maioria é constituída por meros técnicos. Uns poucos vieram do teatro; muitos começaram como editores, câmeras, realizadores de comerciais; o mais terrível é que nos últimos anos a maioria é constituída por pessoas que fizeram curso de cinema na universidade. Em princípio, não há nada errado com uma compreensão profunda dos meios técnicos disponíveis para que uma imagem seja registrada no celulóide. Mas o cinema não é apenas formas de luz, assim como um romance não é apenas papel manchado de tinta. Um filme é uma determinada reação à realidade, e essa reação deve ser definida, primeiramente, por um escritor. Infelizmente, nenhum diretor de cinema contemporâneo suporta ser visto como mero intérprete. Sente necessidade de ser o único criador. O resultado disso é que em geral ele é um plagiário, contando histórias que não lhe pertencem.”

 

 Espertalhões? 

 

“Já que o cinema falado está mais próximo do romance do ponto de vista da forma, ocorre-me que a geração literária que está surgindo poderia ver o cinema como seu tipo específico de romance, um romance a ser criado por eles com a colaboração de técnicos, mas sem a interferência do diretor, esse plagiário-espertalhão que há vinte anos domina, explora e [ocasionalmente] realça uma forma de arte que ainda está em busca de verdadeiros autores.”

 

Esse ensaio, traduzido por Heloisa Jahn, foi publicado em 25 de novembro de 1976, na The New York Revew of Books, e me parece muito oportuno, mesmo depois de passadas mais de três décadas. Se Gore Vidal tem ou não razão, é uma boa questão a ser debatida. Mas o que tem de diretor por aí conseguindo estragar ótimos livros não é pouca coisa...



Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 10h59
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Presente e passado na obra de dois contistas gaúchos

 

Olhos de Morcego                                Uísque sem gelo

Leonardo Brasiliense                                     Vítor Biasoli

Editora 7Letras                                               Editora Movimento

108 páginas                                                      86 páginas


Dois contistas gaúchos estão com livros novos na praça, Leonardo Brasiliense e Vitor Biasoli, ambos com uma obra já consistente em seus respectivos currículos. Em seu novo livro, Olhos de Morcego, Brasiliense mantém as características de obras anteriores. Toma como ponto de partida para sua ficção aqueles eventos comuns da vida quotidiana protagonizadas por pessoas simples, aparentemente sem uma grande biografia, mas que na mão de um escritor sensível e atento às mazelas humanas acabam se transformando em personagens de uma impressionante densidade psicológica.

A matéria prima de Brasilense são os dramas banais de criaturas banais que habitam cantos esquecidos do mundo quase como se não existissem. Pode se revelar tanto no episódio de um peão perdido, à noite, no meio do pampa, como no da adolescente rebelde que planeja uma fuga para se encontrar com o namorado, ou da parteira que nunca teve filhos, da viúva de um marido que só lhe deixou dividas, da avó que procura o estuprador da neta para fazer justiça com as próprias mãos, ou do genro que toma cerveja em companhia da sogra como forma de se auto-excluir dos conflitos familiares.

Nota-se, ainda, na obra de Brasiliense uma reiterada inquietação com a técnica narrativa, já nítida em seus livros anteriores, explícita agora no primeiro conto do novo livro, o excelente Fim dos Tempos. A ação se desenvolve a partir da transmissão ao vivo de uma tentativa de linchamento. Mas o interessante aqui é a técnica e o seu efeito. Por meio de uma nervosa mas equilibrada alternância de focos, que vai da câmera à tela do vídeo, do personagem que participa da ação àquele que a assiste na televisão, o autor transmite com real precisão um tipo de evento muito comum hoje na programação cada vez mais apelativa da TV brasileira. Fim dos tempos lembra o carioca Sérgio Sant’Anna, um dos autores brasileiros mais inquietos com as possibilidades técnicas da narrativa.

Vitor Biasoli, por sua vez, segue um outro viés, não menos atrativo para a literatura: a memória e suas implicações na vida presente dos personagens. O louvável em Uísque sem gelo é que o autor, ao contrário do que muito se vê em obras com tal conteúdo, não faz de seus personagens criaturas que reverenciam o passado com ranço saudosista, invocando-o como o ideal e insuperável em todos os sentidos. Pelo contrário, nessas constantes referências a fatos da infância e da juventude há sempre a necessidade, às vezes quase frenética, de reavaliar certas posturas com o objetivo de entendê-las a partir de um novo contexto. A narrativa muitas vezes vem carregada de melancolia e sofrimento, ingredientes importantes para se entender o ambiente claustrofóbico no qual mergulham os personagens-narradores de Biasoli.

O autor tangencia ainda um período emblemático da vida política brasileira, os anos 70, o auge da ditadura militar, e faz dele, sem rancor ou reverência, um pano de fundo consistente, uma espécie de rio a transitar com vigor no subsolo do texto. A agitação da vida universitária, as repúblicas estudantis, a liberação sexual, o dia a dia de uma geração inquieta que se conflita com os fortes resquícios de puritanismo do início do século fazem de Uísque sem gelo não apenas uma possibilidade de reencontro para aqueles que viveram a mesma época. Permite também às gerações mais novas o conhecimento sobre uma época ao mesmo tempo obscurantista e de libertação, marcada por importantes transformações, especialmente na área social, de costumes e de comportamento, com fortes implicações nos dias atuais. [TD]

 [Revista APLAUSO - edição 91]



Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 10h19
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