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Como criar uma personagem

A pergunta mais freqüente que ouvem os escritores é “de onde vem a inspiração?” para criar personagens, como se um outro mundo, que não este conhecido de todos, estivesse ao alcance dos olhos de quem cria. A resposta, pela sua simplicidade, às vezes desaponta quem pergunta. Vitor Hugo, por exemplo, considerava-se não mais que “o eco sonoro” do mundo que o cercava. Anton Tchekhov, outro gigante da literatura universal, também fez do quotidiano uma inesgotável fonte de material literário. Seu amigo A. Kuprin, em ensaio intitulado À memória de Tchekhov, revela que ele conversava com igual interesse com um cientista ou um vendedor ambulante, um mendigo ou um literato, um conhecido funcionário público ou um monge de caráter duvidoso. Turgêniev era ainda mais direto: “Nunca tentei criar um personagem sem ter, para me inspirar, não uma idéia, mas uma pessoa viva.”

A escritora espanhola Rosa Montero, em seu livro A louca da casa, conta a história exemplar de como surgiu a idéia de escrever o romance Te tratarei como uma rainha. Certa vez, sentara-se num bar de Sevilha, e servindo os poucos fregueses da casa estava uma mulher que, de início, nada apresentava de interessante para lhe chamar a atenção. Depois de algum tempo, no entanto, tirou o casacão que vestia, deixando à mostra apenas um vestido azul cintilante, muito justo ao corpo, e foi tocar piano, num canto obscuro do bar. O primeiro pensamento da escritora, ao ver aquela personagem viva à procura de um autor, foi perguntar a ela que tipo de sonhos a levaram a aprender piano e que tipo de fracassos a atingiram ao ponto de vir parar ali, naquele bar de quinta categoria, dividindo a vida entre a garçonete e a pianista da casa. Preferiu, no entanto, ela mesma, por meio da ficção, dar a essa mulher uma história.

 Do real para a ficção

Te trataré como a una reina ainda não foi publicado no Brasil. No início do ano, quando estive em Buenos Aires, adquiri um exemplar em espanhol, editado pela Seix Barral, coleção booket, e pude conhecer uma históira que sempre me pareceu muito curiosa. Assim, no segundo parágrafo do livro, Rosa Montero começa a transpor para a ficção a personagem real que conhecera num bar de Sevilla: “La tarde de autos don Antonio se encontraba em su casa quando sonó el timbre de la puerta. Poco imaginaba el infortunado que en descansillo le estaba la asesina, Isabel López, de 46 años, más conocida con el alias de ‘La Bella’, cantante de boleros en un clube nocturno cercano al barrio chino, actualmente detenida por la eficaz acción de los inspectores de Polícia del Grupo de Homicidios.”



Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 08h37
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O bom futebol fora das quatro linhas

O segundo tempo

Michel Laub

Companhia das Letras

112 páginas


Dos especialistas da área ouve-se muito a afirmação de que o futebol, pela paixão que o envolve, pela sua beleza e pela tensão vivida por jogadores e torcedores durante uma partida, é uma fonte dramática pouco explorada, em especial na literatura e no cinema. Alguns escritores até têm se ocupado dele numa tentativa de conciliá-lo com a literatura, concedendo-lhe um valor - digamos - mais intelectual e não somente objeto de paixões e algo meramente de entretenimento, mas o resultado tem sido pífio. É justo que quem é do ramo, com o intuito de valorizar uma ocupação diuturna, tente fazer do futebol algo que ele não é. No frigir dos ovos, no entanto, o bom do futebol está mesmo é dentro das quatro linhas, durante o tempo regulamentar, apaixonando multidões e sendo, no máximo, o combustível das discussões da segunda-feira seguinte.

Há, no entanto, as exceções. Aldyr Garcia Schlee, por exemplo, escreveu um excelente livro que tem o futebol como foco, digno das melhores considerações. Em Contos de Futebol, destaca-se o conto Naquela Tarde Impossível - a história de uma turma de garotos fanáticos que, na tarde de 16 de julho de 1950, por pressentimento ou para driblar o nervosismo de uma decisão, atravessa a fronteira e vai à matinée, justamente na casa do inimigo, o Uruguai, com quem o Brasil joga a final da Copa do Mundo. Outro autor que também deve ser citado como um dos poucos que se deram bem ao tomar o futebol como ponto de referência é Sérgio Faraco. No conto Dia dos Mortos também se reporta ao fatídico jogo, no qual o Brasil, ao ser derrotado, frustra a expectativa de uma nação inteira. O autor transpõe essa frustração para dois personagens banais, anônimos, o que resulta numa tragédia de altíssima e primorosa abordagem psicológica.

Entre esses dois grandes autores pode-se colocar o também gaúcho Michel Laub, com seu O Segundo Tempo, cuja referência é aquele jogo que ficou conhecido como o Grenal do Século, disputado no dia 12 de fevereiro de 1989. Nesse dia, Internacional e Grêmio disputavam não apenas o direito de seguir em frente no Campeonato Brasileiro, mas também uma vaga na copa Libertadores da América. Desnecessário dizer que as paixões, naquele dia e nos anteriores, tanto de gremistas como de colorados, esteve à flor da pele. Laub, como fizeram Schlee e Faraco [e certamente está aí o motivo dos excelentes resultados que alcançam ao tomar o futebol como tema], deixa a teoria futebolística para os especialistas da hora e usa a exacerbação da rivalidade para dimensionar os dramas pessoais dos seus personagens.

Laub relembra as escalações e até quase narra os momentos mais dramáticos da partida. Mas não é o jogo em si a peça central, ou a mais importante, dos conflitos vividos pelo protagonista naquela triste tarde de domingo. O drama é muito maior do que perder uma decisão. O que está em jogo e depende do resultado da partida é algo de extrema complexidade - são os destinos de pessoas queridas e desamparadas. E Laub sabe muito bem colocar essa relação na balança. À medida que a narrativa se desenvolve, o jogo se torna paradoxalmente mais importante não pelo que representa como uma decisão, mas pelas conseqüências que seu resultado terá na vida íntima dos protagonistas. Conseqüências que, ressalte-se, nada têm a ver com campo ou vestiário - estando aí uma das grandes virtude do livro.

Esse talento para dominar a narrativa e manipular [para o bem] a emoção do leitor Michel Laub já havia demonstrado em seu primeiro romance, Música Anterior. Trata-se, portanto, de um autor cuja obra já o consagra como um dos melhores e mais qualificados da literatura brasileira.

[Revista APLAUSO - Porto Alegre-RS]



Escrito por tailordiniz@yahoo.com.br às 09h12
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